Na pandemia covid-19, outro desafio: a dengue

Os avanços das epidemias e a preocupação mundial. Mas, e o nosso comportamento diante de outro grande desafio local, a dengue?

Artigo: Dra Beatriz Emi Tamura, médica presidente da AML e Conselheira do CRM-PR          

O avanço da epidemia do Covid-19 pelo mundo tem provocado também abalos nos mercados globais e elevado as preocupações de investidores e governos sobre o impacto da propagação do novo vírus em todas as cadeias de suprimentos, nos lucros das empresas e na desaceleração do crescimento da economia global. Um impacto na saúde pública mundial, brasileira e também na de Londrina. Cidade onde quatro casos suspeitos estão sendo investigados [Boletim Epidemiológico Sesa de 06/03/20].

Infelizmente uma preocupação real. Mas para Londrina e região uma epidemia muito mais avassaladora está se acometendo, a da dengue. A maior epidemia declarada pela Secretaria de Estado da Saúde: mais de dois mil casos confirmados da doença em Londrina e 44.441 mil em todo o Estado, com 30 óbitos no total [Sesa 03/03]. Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina (SMS), divulgado em 5 de março, a incidência de dengue na cidade é de 328,76 casos a cada 100 mil habitantes. Ou seja, já está com quase trinta casos acima do índice considerado pelo Ministério da Saúde como epidêmico.

Mas, e o que estamos realizando enquanto cidadãos para diminuir tal incidência?
Precisamos fazer com que toda a população mude o comportamento. Esse é o grande desafio para nós, cidadãos e médicos. Precisamos nos unir e, em conjunto com o Poder Público, ajudar no combate ao Aedes aegypti com a transmissão de informações, orientações, pois estamos tratando não só da dengue mas da zika, da chikungunya… e outras mais que surgirão.

Sabemos que é também, e quem sabe acima de tudo, uma questão de educação, cuidados com a higiene pessoal e a preocupação também com a saúde do outro, com a saúde coletiva. Afinal, as pessoas não podem achar normal conviver com lixo nas ruas, pessoas jogando pelas janelas dos carros latinhas ou qualquer outro tipo de detrito, outras varrendo calçadas e jogando a sujeira para dentro dos bueiros, praças repletas de água parada, casas imensas com suas piscinas e jardins de águas paradas. Ou seja, não estamos falando em classe social. Estamos enfatizando que todos deveriam agir e dar exemplos.

A Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene dos Estados Unidos, apresentou uma pesquisa do grupo internacional de pesquisadores, incluindo brasileiros. Esses cientistas infectam os insetos com a Wolbachia, uma bactéria que está naturalmente presente na maioria dos insetos, mas não no Aedes aegypti. Os cientistas descobriram que ela é capaz de bloquear a infecção do vírus da dengue em humanos. Com base nessa descoberta, resolveram modificar mosquitos dessa espécie, injetando a bactéria nos ovos. Depois, soltam os mosquitos em áreas de risco. Após sete anos de trabalho, a equipe constatou redução de até 96% nos números de casos da doença. No Brasil, os insetos modificados foram soltos em regiões com alto índice da doença, como em Niterói (RJ), em Belo Horizonte…

Essa é uma ferramenta biológica, mas precisamos unir esforços para usar o máximo possível de medidas para potencializar resultados positivos no combate a essas doenças. Mas não esquecer nunca que a medida mais importante de todas é a nossa posição na mudança de comportamento. Uma mudança para ajudar com que as futuras gerações não tenham que enfrentar doenças que se multiplicam com a contribuição da própria população.

Vamos refletir, e agir. Neste momento, essa epidemia nos atinge mais rápido do que o novo coronavírus.”

Fonte: Artigo publicado originalmente no Jornal da AML – Edição de Março de 2020

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