Saúde Pública é de particular importância para um sistema sustentável

“Precisamos de valorização, e não apenas aplausos nas janelas”

Investir em atenção primária, com valorização do trabalho dos profissionais da saúde e fortalecimento do SUS são os caminhos para conquistar um sistema de saúde sustentável, com uso racional de recursos para garantir à população atendimento de qualidade.

Esse é o ponto de vista do médico de Família e Comunidade Dr Ricardo Heinzelmann, convidado pelo Jornal da AML para debater o conceito de sustentabilidade em saúde, em celebração ao Dia Mundial da Saúde: comemorado em 7 de abril desde 1950, e proposição da Organização Mundial de Saúde (OMS), dois anos após de sua fundação.

Mestre em Epidemiologia pela Federal de Santa Maria (UFSM-RS), professor de internato em APS do curso de medicina da Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS-Campo Grande) e diretor de graduação e pós-graduação stricto senso da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), doutor Ricardo pontua que tal debate se torna especialmente importante no contexto de pandemia da Covid-19.

“Precisamos de um sistema de saúde fortalecido, e a pandemia nos revelou isso. Não fosse o SUS, a tragédia que vivemos seria ainda muito maior, pois a população carente não teria sequer condições de receber o diagnóstico”, opina. Por isso, ele defende que o Sistema Único de Saúde seja cada vez mais reconhecido e valorizado, tanto em relação ao financiamento, com em investimento necessários – nas áreas de recursos humanos, pesquisa e tecnologia, e garantia de financiamento dos serviços – para que o serviço funcione, como também pelo respeito aos profissionais de saúde, que precisam ter direitos garantidos e condições de trabalho dignas, tanto em espaços físicos adequados como em equipamentos e em carga horária e remuneração justas. “Precisamos de valorização, e não apenas de aplausos nas janelas”, pondera.

Segundo ele, um sistema de saúde sustentável depende essencialmente da valorização da saúde primária para garantir sustentabilidade financeira e de resultados, com bons indicadores. “Promoção e prevenção em saúde em todos os níveis, reabilitação e vigilância no território são ações que comprovadamente trazem resultados”. Doutor Ricardo explica que tal trabalho deve considerar diferentes níveis. A prevenção primária, por exemplo, diz respeito a orientar e disponibilizar para a população os processos determinantes de saúde, que envolvem alimentação saudável, lazer e atividades físicas.
Já a prevenção secundária considera o combate a fatores de risco para o adoecimento e inclui recomendações como redução no consumo de gordura e carboidratos, combate ao sedentarismo e outros hábitos nocivos, como por exemplo o tabagismo. “São mudanças nos hábitos de vida que ajudam a evitar que comportamentos virem doenças”, destaca.
A prevenção terciária, por sua vez, considera o manejo eficiente de pacientes com doenças crônicas – como hipertensão e diabetes – para evitar complicações que levem essas pessoas aos hospitais, onde os custos do atendimento são muito maiores. Por fim, ele cita um nível novo de prevenção, quaternário, que diz respeito ao bom atendimento clínico para evitar excessos de exames e procedimentos que, além de onerar financeiramente o sistema, também gera riscos desnecessários de intervenções invasivas nos pacientes.

“A força do sistema de saúde tem que ser pela atenção primária, é ela que vai coordenar o cuidado com o paciente e definir como serão os encaminhamentos, quando necessário. Para isso, é preciso investir em equipes de saúde da família multiprofissionais, com equipe qualificada a resolver problemas de forma mais geral e indicar o especialista com mais propriedade quando for preciso”, defende.
As equipes de PSF, segundo ele, promovem também um atendimento mais humanizado e não “perdem” o paciente no processo, visto que eles (pacientes) sempre voltam à atenção primária mesmo quando são encaminhados para outros níveis.  O modelo, na opinião do especialista, é eficiente também para a saúde complementar, pois reduz significativamente os custos da operadora.

Temos um bom modelo de saúde, mas falta investimento de fato
O Brasil, apesar de ter desenvolvido um modelo exemplar de atendimento universal em saúde, está com o sistema ameaçado pelas perdas que o SUS vem sofrendo ano a ano. “Infelizmente o Brasil não investe como deveria no SUS de forma geral. Os investimentos apenas repõem as perdas com a inflação, mas não conseguem apoiar a ampliação da atenção primária. Ou seja, faltam recursos (em suas diferentes áreas e formas) para a implementação de novos programas e projetos”, pondera Dr Ricardo Heinzelmann.

O médico especialista e da direção na área de educação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, destaca ainda que esse investimento, inclusive, seria uma solução para reduzir custos. “O custo de manter uma internação por dez dias, por exemplo, é maior do que uma equipe trabalhando o ano inteiro. Temos um bom modelo de saúde, mas falta investimento de fato, e isso seria fundamental para garantir sustentabilidade de todo o sistema”, completa

Saúde é intersetorial e tem determinantes sociais
Doutor Heinzelmann lembra que o Brasil tem um dos maiores e melhores programas de vacinação gratuita do mundo, que foi, inclusive, responsável por diminuir significativamente as doenças infectocontagiosas no país, além de contribuir de maneira fundamental para reduzir índices de mortalidade infantil. “Isso precisa ser valorizado. No caso da Covid-19, por exemplo, teríamos condições de vacinar a população rapidamente se houvesse vacinas, mas houve erro na aquisição e agora estamos no fim da fila. Não podemos deixar que questões técnicas sejam sobrepostas por questões político-ideológicas em ações de promoção da saúde”, critica.

Ações que reduzam a pobreza e, consequentemente, a desigualdade social, também são necessárias para garantir um Brasil mais saudável. “A saúde é intersetorial e tem determinantes sociais. Falta de saneamento básico e manejo adequado do lixo, por exemplo, causa as chamadas doenças da miséria, com a leptospirose”, diz. Acesso à escolaridade e políticas relacionadas à equidade sociorracial são outros pontos de reflexão necessários para garantir um acesso mais justo à saúde. “Afinal, em uma leitura, sem saber compreender o texto, diminuem as chances de cuidar da própria saúde com base em informações de qualidade. Além disso, o racismo estrutural ainda limita o acesso das populações negra e indígena às políticas públicas de saúde”, afirma o especialista.

Tais reflexões exigem especial atenção até mesmo em um contexto de desenvolvimento do país como um todo. “Uma população adoecida não vai exercer bem suas funções e potencialidades, seja no trabalho ou no campo da aprendizagem. O investimento em saúde volta em forma de riqueza. Uma população saudável tem muito mais condições de produzir riquezas materiais e imateriais”, finaliza.

Fonte: Entrevista publicada no Jornal da AML – Abril 2021, em reportagem da jornalista Carolina Avansini

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